Life

Do Design à Estrada: Minha Jornada de Reinvenção e Sobrevivência na Europa

Mudar de país com a família é um projeto que exige coragem, mas viver a realidade do dia a dia exige algo ainda maior: a capacidade de se reinventar. O desejo de morar na Europa já era um sonho antigo, mas o estopim para transformar o plano em realidade veio com a minha demissão no Brasil, em agosto de 2018. Ali, decidimos que era hora de dar o salto.

Para levantar o capital necessário, o desapego foi total: vendemos absolutamente tudo o que tínhamos de bens materiais e carro — a única coisa que sobrou foi o nosso apartamento. Meus pais, vendo nossa movimentação, decidiram embarcar na mesma jornada. Como meu irmão já morava na Austrália, eles sabiam que ficariam muito sozinhos no Brasil sem a gente.

Em junho de 2019, fechamos as malas rumo a Portugal. Éramos uma verdadeira caravana: eu, minha esposa, meus pais, nossos três filhos e, claro, os dois agregados de quatro patas que jamais ficariam para trás: nossos gatos.

A Saga da Documentação e o Pouso em Cascais

Quem já tentou emigrar com animais de estimação sabe que a burocracia é um capítulo à parte. É teste de sorologia de raiva, microchip, idas ao veterinário, passaporte e regras rígidas das companhias aéreas. Toda essa logística internacional só foi possível graças à minha esposa — uma verdadeira guerreira e pesquisadora desenrolada, que correu atrás de cada detalhe, papel e carimbo para garantir que a Luna e o Spike viajassem em segurança.

Nossa primeira parada em solo português foi em Cascais. Alugamos um Airbnb e ficamos lá por um mês. Aproveitamos esse tempo para ir atrás de todas as documentações, respirar, deixar as crianças ambientarem ao novo fuso e conhecer a região. Mas o nosso foco sempre foi o Norte do país, pois sabíamos que lá encontraríamos as melhores opções de escolas para as crianças.

Para podermos nos locomover com autonomia, compramos em Lisboa um Citroën C8 a diesel, usado e super rodado. Que carro sensacional! Ele foi o nosso herói. Imagina a cena: sete pessoas, um mar de malas e uma caixa de transporte gigante com os gatos, todos acomodados no C8 cruzando Portugal. Subimos para o Norte e passamos duas semanas no Porto enquanto procurávamos o lugar ideal, até que encontramos um apartamento T4 para alugar em Braga. Nos apaixonamos imediatamente pela cidade e decidimos que seria ali o nosso lar.

Em julho daquele mesmo ano, usamos o valente Citroën para fazer uma viagem inesquecível até a Espanha, onde comemoramos o aniversário de 10 anos da Laura no Parque Warner, em Madrid. Um momento de respiro lindo antes de a rotina real começar.

O Primeiro Ano em Braga e a Transição para a Casa Própria

Moramos todos juntos nesse apartamento T4 alugado por cerca de um ano. Foi um período intenso de adaptação, descobertas e rotina. Minha esposa não trabalhava fora; ela se dedicava em tempo integral à educação, organização da casa e ao acolhimento das crianças, o que foi fundamental para que a Laura, a Naomi e o bebê Erick se integrassem tão bem à nova vida e à escola pública local. Os gatos também já se sentiam donos do pedaço.

As aulas iniciam em Setembro em Portugal, e não tivemos dificuldade em matricular as crianças. Aliás elas também não tiveram problema nenhum em adaptação, foram super bem recebidas.

Após esse primeiro ano de experiência, com a certeza de que queríamos fincar raízes em Braga, decidimos que era hora de usar o dinheiro que havíamos guardado com a venda dos nossos bens no Brasil para investir na segurança da casa própria. A diferença de valor entre alugar um imóvel e financiar, era muito grande, e valeu muito a pena no final de contas.

Através de uma imobiliária, encontramos uma oportunidade perfeita: um proprietário estava vendendo os seus dois únicos imóveis no mesmo prédio. Aproveitamos a chance e compramos os dois de uma vez, direto com ele. Meu pai comprou um apartamento T2 no térreo e eu comprei um T3 no subsolo. Viramos vizinhos de porta! Isso nos deu uma rede de apoio familiar fantástica, mantendo todos por perto, mas cada um com seu espaço.

O Choque Profissional

Com a casa própria garantida e a família estabelecida, o foco total mudou para o mercado de trabalho. Como designer de formação, tentei de todas as formas me realocar na minha área na região de Braga. Foi um verdadeiro balde de água fria. O mercado em Portugal se mostrou extremamente fechado e o salário mínimo do país é muito baixo. Na área de design, as propostas eram péssimas e o trabalho muito mal valorizado, tornando inviável o sustento da casa.

Como o dinheiro guardado não podia apenas sumir, precisei agir rápido. Fui trabalhar como entregador na Telepizza. Minha experiência lá durou exatamente duas semanas — o suficiente para entender o lado mais duro da imigração. Foram duas semanas sem salário fixo, sem gorjetas e onde o único ganho real no fim do turno era um pedaço de pizza para comer antes de voltar para casa. Percebi que aquilo não mudaria nossa realidade e desisti.

Felizmente, eu já estava construindo um plano B em paralelo: no mesmo período das entregas, eu passava os dias focado nas aulas teóricas para tirar a carteira de motorista de caminhão.

Uma Nova Profissão e o Início da Pandemia

O processo para me tornar motorista de pesados exigiu muito foco. Depois de passar pela habilitação, veio a etapa do CAM (Certificado de Aptidão para Motoristas). Foi justamente nessa fase que o mundo virou de cabeça para baixo: a pandemia começou. Com o confinamento e o fechamento dos serviços em Portugal, conseguir agendar e realizar a prova do CAM se tornou uma verdadeira maratona burocrática e tensa.

Como eu tinha zero experiência no setor de transportes e precisava de um diferencial competitivo para o mercado, decidi investir também no ADR (licença para transporte de mercadorias perigosas). Essa decisão acabou sendo o meu grande passaporte de entrada para o mercado internacional.

A Estreia na Espanha: Rotina a “Dois” no Frigorífico

Recebi uma indicação de trabalho em Niebla, no sul da Espanha próximo a Sevilla. Como eu possuo cidadania italiana, o processo para conseguir a permissão de trabalho espanhola e a documentação local foi super rápido.

Minha primeira experiência real na estrada já foi no sistema de “Double Driver” (condução em dupla). O caminhão simplesmente não parava: rodava entre 18 e 20 horas por dia, alternando os motoristas na boleia. Fazíamos transporte internacional frigorífico e, naqueles meses, conheci a Europa pelo para-brisa, rodando muito por Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália e Inglaterra.

Após 6 meses nessa empresa, exausto pela dinâmica brutal do caminhão que nunca para, pedi demissão próximo ao Natal de 2020. No início de 2021, surgiu uma proposta para trabalhar na Inglaterra. Cheguei a ir ao aeroporto com tudo pronto, mas, na hora do embarque, percebi que havia esquecido minha carteira de motorista. Diante daquele sinal, resolvi desistir da viagem naquele momento e recalcular a rota.

O Trabalho Solo com Lona

Em março de 2021, consegui emprego em uma empresa portuguesa, desta vez para dirigir “solo” um caminhão de lona. A maioria das minhas rotas partia de Burgos, na Espanha, com destino à Alemanha, Holanda e algumas cargas para a França.

Gostei bem mais desse trabalho, mas a rotina do transporte internacional europeu continuava brutal. Menção honrosa a minha esposa Camila que preparava marmitas maravilhosas e sempre que eu comia me trazia um sentimento de proximidade da família, e ela é uma cozinheira de mão cheia.

Nessa rotina, a vida se resumia a passar 3 semanas trabalhando na estrada e ter apenas 3 dias em casa com a família. Os finais de semana eram inevitavelmente dormindo na cabine, em postos de combustível ou estacionamentos pelas rodovias europeias e fiquei mais 6 meses nessa rotina. Não me entendam mal, eu não me arrependo de absolutamente nada, mas era muito tempo perdido, e apesar das chamadas de vídeo com a família, eu sentia que estava perdendo muito do crescimento e evolução das minhas filhas e principalmente do meu filho, a dor emocional era real e a partir da terceira semana você não pensa em outra coisa a não ser voltar pra casa.

O Próximo Passo: O Chamado de Londres

A estrada me deu a bagagem e a casca que eu precisava. Sabendo que eu conseguia encarar o transporte internacional de frente, a oportunidade de trabalhar em Londres bateu novamente à minha porta no final daquele ano.

Dessa vez, verifiquei os documentos duas vezes. O plano foi traçado: eu embarcaria sozinho para desbravar o mercado inglês, deixando a família em segurança em Portugal até que a estrutura estivesse pronta.

Mas como é pisar na Inglaterra para dirigir na mão inglesa, enfrentar um novo mercado pós-Brexit e viver longe da família? Isso eu te conto em detalhes no próximo post. Até lá!

Guilherme Chimenti

Pai de família, entusiasta do "pé na estrada" e mente por trás de múltiplos projetos digitais. Minha história é marcada pela mudanças (geográfica e profissional) o que me deu a resiliência para gerenciar negócios que vão da curadoria tecnológica ao design especializado. Acredito que o sucesso está no equilíbrio entre o planejamento estratégico e a paixão pelo que se faz.

Deixe um comentário